Rant: O Problema dos Guias na Internet.

Primeiramente, gostaria de informar aos senhores treteiros do famigerado mundo da literatura independente, que eu não sou contra os guias de ajuda aos autores, de jeito nenhum, acredito que tudo o que possa contribuir para que outras pessoas melhorem sua escrita é realmente útil e justificado, até porque, em plena era da informação, ajudar o coleguinha com dúvidas é uma ótima atitude. O que eu sou contra, são aqueles guias que querem cortar o estilo de escrita do autor.

Lembro que há alguns anos atrás, eu li um livro chamado Guerrilha Urbana, que possuía uma história focada em personagens simples, que viviam, se não me falha a memória, no mesmo condomínio e cujas histórias se entrelaçavam, tudo isso na época da terrível ditadura militar brasileira.

O que mais me chamou a atenção na obra citada acima, era a simplicidade proposital da escrita, o jeito como as situações eram narradas de maneira direta, crua e coloquial e toda vez que leio guias problemáticos na internet, vindo direto de pessoas populares no meio, porém sem nenhuma fundamentação teórica e crítica, penso que se o autor de Guerrilha Urbana tivesse se enquadrado nos padrões propostos pelos críticos de Youtube, ele simplesmente não teria escrito uma obra tão profunda e rica.

Mas por que estou dizendo isso?

O problema que os responsáveis por estes guias (como por exemplo, aquele famoso texto sobre “Os Verbos de Pensamento” que estava correndo pela internet) precisam ter em mente é que quando eles estão lá, dizendo para autores amadores o que se deve ou não fazer quando se tenta expressar uma ideia, muitas vezes eles estão destruindo completamente o estilo pessoal de alguém, que também não possui uma formação teórico-literária o suficiente para discernir o que pode ser ou não aproveitado naquele conteúdo.

E isso não é falta de leitura, por parte daqueles que aceitam este tipo de “dica traiçoeira”, afinal, por experiência própria, antes de entrar no curso de Letras, eu lia este tipo de guia, e ia correndo para meu manuscrito mais recente cortar todos os verbos de pensamento possível, e por que? Eu sempre fui uma pessoa que li bastante, sempre adorei literatura, mas antes de mergulhar na teoria que se aprende no meio acadêmico, eu não tinha ideia sobre questão estilística, sobre o significado de cada elemento em uma obra de intenção literária, e por isso eu acreditava que quando o fulaninho dizia que para eu escrever bem precisava fazer isso, isso e aquilo e eu percebia que não fazia, eu pensava… “Sou um fracasso completo”.

E é este ponto que separa um guia inútil e pejorativo de um guia proveitoso:

É obvio que boa parte de nós, que escrevemos de forma independente, possuímos alguns problemas na escrita e na construção de obras, ainda mais, levando em conta que uma boa parcela destas pessoas ainda são adolescentes, que estão dando seus primeiros passos no ramo das letras, e que naturalmente, não sairão escrevendo seus primeiros parágrafos como se fossem um hibrido de Machado de Assis com Garcia Lorca.

Então como fazer com que as pessoas melhorem sua maneira de expressão, fazendo com que desenvolvam um estilo próprio e histórias realmente complexas? Reflita e responda mentalmente.

  • (a) Fazendo uma lista de 10 fatores de como escrever de uma forma que alguém sem formação teórica julga apropriada, se embasando em estilos de outros artistas famosos e desconsiderando o gênero e os fatores internos da obra.
  • (b) Apontando alguns aspectos críticos e teóricos que podem ser usados para evolução e criação de um estilo próprio.

Deixe-me exemplificar:

Há algum tempo atrás eu me deparei com uma lista de coisas que todo autor precisaria evitar para escrever um bom livro. Este guia incluía a dica do corte dos verbos de pensamento (Ahhh pobre Dom Casmurro, como ele vai expressar a famosa subjetividade que formou a pergunta mais famosa da literatura brasileira, sem os verbos de pensamento?) e também incluíam tópicos como “Não fazer o cenário condizer com o humor do personagem” (Pobre Edgar A. Poe, que depois dessa, passou a ambientar seus contos na Disney World).

Em seguida, em outro blog, encontrei um guia, muito didático, sobre as diversas formas do tempo na narrativa, cercado de exemplos e junto a uma explicação do efeito que cada uma dessas formas causa nos leitores e qual a decorrência da escolha do autor no desenvolver da obra.

Aí está a diferença, no primeiro guia, há uma listagem de erros, que não levam em conta o tipo de obra, ou o tipo de escrita da qual esta se trata. Se um autor inexperiente que necessita da subjetividade para criar, por exemplo, situações ambíguas, que deixam o leitor na dúvida, lê que não deve usar verbos de pensamento, e resolve colocar isso em prática, pode acabar por tirar um pouco do sentido pretendido por ele, que escolheu de forma inconsciente uma forma que talvez lhe favorecesse mais em passar a mensagem pretendida.

O ideal não seria fazer um guia falando que um escritor famoso usa tal método e que todos deveriam usar, e sim, buscar uma forma de explicar como em alguns casos o verbo de pensamento pode empobrecer o sentido da obra, mostrando exemplos de como o autor pode descobrir se o tipo de escrita que ele adotou, ajuda ou não a passar uma mensagem condizente ao enredo.

O mesmo vale para a ideia do cenário. É bem verdade que muitas vezes este fator se mostra exagerado em obras amadoras, no entanto, mais valeria, falar sobre as diversas maneiras de adaptar a ambientação do que dizer que esta nunca deve condizer com o humor do personagem, pois isso não se mantem em obras, como por exemplo, os contos fantásticos onde a ambientação sombria é necessária para que o leitor entre na atmosfera assustadora pretendida e isso trabalha junto com o psicológico e o emocional das personagens.

Outro fator negativo neste tipo de guia que corta a criatividade por completo, é que geralmente, para alguém de quinze anos, sem uma grande bagagem de escrita, estas situações são muitas vezes desmotivadoras, e para autores inseguros, reforça mais ainda a famigerada autocrítica excessiva.

Uma pessoa muito autocrítica, tende a desmotivar lendo certos tipos de coisa, e se queremos realmente ajudar alguém a evoluir, se queremos ajudar a formar uma geração de escritores com estilo próprio, é completamente incoerente fazer uma lista do que se deve ou não fazer, devemos apresentar possibilidades de elementos que podem ser usados, para assim ajudar alguém a construir seu estilo e sua estética, e para que este possa aprender a corrigir e perceber seus erros, sem se sentir mal.

Espero que isso faça vocês pensarem e reverem seus conceitos.

E se você for um autor novo, por favor, procure guias que vão realmente te ajudar, não saia cortando verbos, fazendo cenários floridos em histórias de terror, não acredite em tudo o que você lê na rede. Pesquise! pesquise teorias críticas escritas por pessoas que entendem do assunto, pesquise guias que te apresentarão opções e ignore aqueles que te fazem cortar basicamente todo o seu estilo. Você só vai evoluir, se focar na mensagem que você pretende passar

Diário de Escrita: Teorias e Práticas do Bloqueio.

Ah a agonia de se estar diante do computador, em uma madrugada movida por café e cigarros, onde as idéias simplesmente se jogam em um poço profundo e de lá se recusam a sair: O famigerado bloqueio, que não tem cura, embora alguns especialistas sugiram uma centena de soluções homeopáticas e questionáveis, como uma boa maratona de séries, ou uma leitura atenta de um livro inspirador.

Coisas que nunca funcionaram efetivamente para mim no presente caso que venho relatar.

Talvez seja uma forma crônica deste mal que aflige a tantos como eu, que tentam escrever seus parágrafos, o que sei é que não consigo dar nenhuma continuidade a nenhum dos meus projetos, parados há semanas, ou até mesmo há meses, e a unica explicação que encontro para tal infortúnio é a dificuldade sem precedentes em me desligar dos personagens do meu último projeto finalizado.

As pessoas com as quais costumo conviver conhecem a importância de “Aos Olhos dos Homens”, tanto na minha evolução como “escritora” como no quão fundo eu fui psicologicamente para conseguir colocar no papel as personagens, Theo e Felipe. Tal empenho, creio eu, fez com que eu me ligasse com eles de forma a continuar a querer planejar o que será escrito em um próximo capítulo, este que obviamente não existe, a história foi concluída, já foi contada, não há mais virgulas à serem adicionadas.

Ainda assim, o lado fantasioso da minha cabeça continua a pensar em metáforas que caberiam bem ao enredo, ainda lembro da trama o tempo inteiro, tentando inconscientemente adicionar mais alguma coisa ali, pensei inclusive em escrever uma continuação, porém logo que comecei a analisar mais a fundo a possibilidade, notei que se eu criasse uma trama que se sucedesse ou antecedesse os eventos de “Aos Olhos dos Homens”, eu estaria fugindo do propósito que eu criei para a narrativa, aliás, eu estaria caindo no erro de fazer justamente o que tentei evitar durante todo o processo de escrita:

O exagero romântico.

Tendencia que infelizmente me persegue, e que atrapalha quando o projeto em questão possui um questionamento que vai além do que o romance em si.

Outro motivo é a bagunça.

Meus textos no computador estão completamente bagunçados, meu Tumblr – onde costumo escrever com outras pessoas – está terrivelmente desorganizado, minha conta no Wattpad – onde publico as histórias de forma independente – está um caos sem precedentes, com diversas mensagens para responder, livros para atualizar a leitura, foto e papel de parede cansativos, capas que eu já não gosto mais…

Só de pensar em começar a organizar tudo a alma dói.

Quem me conhece sabe que preguiça, sem dúvida é meu pecado capital favorito, e a procrastinação me persegue (ou vice-versa).

O primeiro passo para me reequilibrar com as palavras está em organizar os rascunhos, limpar o que eu preciso limpar, e me dedicar a próxima trama, mas como não sucumbir aos remédios homeopáticos que viciam? A Netflix está lá, com as séries e os filmes, os jogos eletrônicos também, assim como os livros e as músicas.

Tudo parece dançar ao meu redor e sussurrar no meu ouvido “Ouça-me, Abra-me, Leia-me, Assista-me, Jogue-me”.

Pensando então em todas esses pontos importantes,  decidi definir uma meta de organização (repare que não é uma meta de escrita, não sou à favor das metas de escrita).

Esta madrugada será inteiramente dedicada a arrumar tudo, sem jogos, sem música, sem Netflix…. deixar todas as coisas encaminhadas, limpar o caminho para que eu possa ver o próximo passo e voltar a escrever com a frequência e vontade de antes.

 

Perda

E assim começa a história… Em um bar de Pelotas, sem álcool e apenas a fumaça dos cigarros de uma tarde quente de Natal. Naquele dia, todos os grandes senhores e senhoras, reuniram-se em um circulo. Todos jogavam xadrez, porém sem rei ou rainha em nenhum dos lados, ambas as peças haviam sido tiradas no tabuleiro, então era um jogo completamente sem sentido, já que a peça mais poderosa não existia, e não havia ninguém para se por em cheque.

Apenas Virgilio e os irmãos entendiam que aquele jogo que todos havia criado, parecia insensato, por isso, em lágrimas, nostálgicos e também sem reis e rainhas para jogar tradicionalmente, decidiram que se divertiriam da maneira que fosse possível.

E de certa forma, ao menos até dado momento, Virgilio se divertira, bebera alguns goles de cerveja, fumara alguns cigarros, cantarolou algumas musicas, mas nada de se aproximar muito do tabuleiro de xadrez.

Por fim, sentou-se em um canto, já distante dos irmãos, parou-se a ouvir a conversa das senhoras, que tentavam explicar o paradeiro das peças principais do jogo, e foi quando o ouvinte percebeu que tudo parecia errôneo, e repentinamente o manto da tristeza caiu sobre seus ombros, ele então percebeu que em sua garganta havia algo, e que já não podia falar, a verdade é que nem conseguia respirar direito e as lágrimas foram lhe caindo ao rosto, revelando sua face fraca a tristeza, e o manto, durante o dia inteiro, cegou seus olhos.

Viu então que não pertencia nem a fantasia e nem a realidade, que na verdade, era a união dos dois… assim soube que era repartido, e que não poderia jamais escolher um mundo só, tudo em seu ser era par.

Mundo da Lua

Estes dias passei por uma rua, verde e cinza com os ares de campo e cheiro de fumo.

Era uma rua de um universo inteiro, e aqueles que lá viviam tinham os ares de morte, com olheiras fundas de um sono que nunca vinha. Os subversivos, tinham no rosto uma marca tatuada, visível apenas aos detalhistas, era quase como uma ruga, uma marca qualquer deixada pelo tempo, nada que estragasse as aparências, mas que existia e no espelho se destacava mais que qualquer outra coisa que os olhos pudessem captar.

Conheci a viajante e o pianista em busca de algum lugar para ficar, e os dois haviam encontrado abrigo na casa no fim da rua, longe dos donos daquele mundo que não os pertencia, pois de onde vieram a liberdade existia nas estradas e nas teclas de marfim.

Os dons da viajante e do pianista não serviam de nada ali. O espirito aventureiro dela, de nada tinha haver com o canto minúsculo da rua, e os dedos delicados dele estavam acostumados a fazerem o som, e na rua do universo palpável, nada disso era bem vindo, aventura e arte deveriam ser abolidos, e por isso os dois foram marcados, desde o momento em que pisaram ali, eram subversivos.

E eles nunca poderiam sair, não sem pelear durante séculos que não tinham, suas vidas eram curtas e nunca conheceriam novamente a poesia do som e o cheiro de estrada nova, haveria sempre aquele caminho infinito que começaria e terminaria no mesmo lugar desconhecido e escuro, onde todos tinham medo de entrar.

Quando os deixei – se é que um dia parti de verdade — tive a ilusão de olhar para o espelho, e ver no meu rosto a mesma marca berrante vista por poucos, aquela que me cortava a alma e dizia, que eu deveria voltar para o meu lugar, bem longe da realidade que nunca consegui veramente tocar.

Meus dons são úteis apenas no mundo dos pianos e das viagens, a realidade daquela rua sempre me atormentou.